Foto: Dnit (Divulgação)
Obras de encostas na BR-158
Quem circula pelo norte de Santa Maria percebe que a geografia marcada pelas cicatrizes das chuvas de maio de 2024 está ganhando novos contornos. Nos pontos mais elevados da cidade, fundamentais para a conexão com a região norte do Estado, duas frentes de trabalho alteram o cenário: enquanto a BR-158 recebe as etapas finais de uma megaobra de contenção que já cobre a rocha com vegetação e concreto, a histórica Estrada do Perau vê o início da movimentação para recuperar o trecho colapsado há quase dois anos.
+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp
Na BR-158, entre Santa Maria e Itaara, a dimensão da intervenção justifica os transtornos enfrentados pelos motoristas, que voltaram a conviver com o sistema de "Pare e Siga" e longas filas durante a última semana até o próximo dia 13 de fevereiro. A rodovia, um dos principais corredores de exportação do Estado e via diária para moradores da cidade vizinha, deixa para trás os antigos trilhos de trem utilizados como barreira para receber uma estrutura robusta de proteção de encostas.

Onde antes havia risco de queda de barreiras, hoje surgem muros de concreto, grades e cercas de alta resistência. Em alguns dos 18 pontos mapeados pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a intervenção já se integra à paisagem, sendo possível notar o crescimento da grama sobre as telas de metal presas aos tirantes cravados na rocha, resultado da técnica de hidrossemeadura.
Em outros locais, menos visíveis para quem passa na pista, muros construídos abaixo do nível da rodovia sustentam o asfalto, impedindo que a base ceda. Nos paredões mais altos, que chegam a 40 metros, equipes especializadas em rapel e guindastes continuam a perfuração, retirando grandes pedras soltas e fixando as estruturas metálicas que garantirão a estabilidade.

O volume de materiais empregados na BR-158 dimensiona a mudança da paisagem no local. Para estabilizar 6,2 quilômetros de encostas, estão sendo utilizadas 325 toneladas de aço e mais de 3 mil metros cúbicos de concreto.
As telas de aço que envelopam os morros somam quase 45 mil metros quadrados – uma área equivalente a cinco campos de futebol. Para prender tudo isso, foram perfurados 133 quilômetros de tirantes (barras de aço) rocha adentro. O investimento total nas contenções, somando pontos da BR-287 na região de São Pedro do Sul, Jaguari, e Santiago pode chegar a R$ 226 milhões.
Estrada do Perau

Enquanto a BR-158 avança para a conclusão, a Estrada do Perau, que tem início no Bairro Campestre do Menino Deus, finalmente começa a receber a obra de contenção. Interditada desde 1º de maio de 2024, quando deslizamentos de terra, quedas de árvores e pedras bloquearam a via, a estrada começou a receber intervenções nos últimos dias.
A movimentação inicial conta com uma escavadeira e uma equipe de operários que realizam a limpeza da área, focando na remoção de resíduos no ponto onde a encosta colapsou. A etapa é estratégica para viabilizar a recuperação total da via que, se estivesse liberada, serviria como válvula de escape para veículos de passeio, aliviando o tráfego de veículos leves e os congestionamentos da BR-158.
A obra, executada pela empresa paulista FG Fundações e Geotecnia Ltda, conta com recursos de R$ 20,7 milhões provenientes do governo federal e tem prazo de conclusão estimado em seis meses. A solução de engenharia escolhida é o "solo grampeado verde". A técnica consiste na inserção de chumbadores de aço no talude, reforçados com injeção de cimento, seguida da aplicação de uma biomanta vegetal para integrar a estrutura à paisagem natural. Mesmo modelo que já é possível visualizar na BR-158.
Antes da entrada do maquinário pesado necessário para essa etapa, foi realizado um levantamento topográfico e análise de estabilidade, essenciais para a segurança dos trabalhadores em uma área que ainda apresenta riscos geológicos.
Além da contenção no trecho de 60 metros, o projeto prevê drenagem profunda, reconstrução do pavimento em paralelepípedos e, futuramente, melhorias urbanísticas nos mirantes, com calçadas e mobiliário urbano.
Memória da chuva histórica
As duas obras são feridas do que restou de um dos momentos climáticos mais delicados em que Santa Maria presenciou frente ao evento climático extremo de 2024. De acordo com a prefeitura por meio de dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a cidade acumulou 835,8 mm de chuva entre o final de abril e maio daquele ano. Somente no dia 1º de maio, foram 213,6 mm, o maior volume diário da história da cidade, superando marcas da década de 1980.
Em Santa Maria, a força da água causou cinco óbitos por deslizamentos e afetou diretamente 12 mil pessoas. O Perau está fechado há mais de 600 dias. Já a BR-158 se aproxima de um ano em obras.